poema primeiro
na tua ausência, habito casas vagarosas povoadas de espelhos incandescentes.
purifico o rosto, enquanto lume branco se anuncia por sobre a boca, retendo húmus impronunciado do teu nome, uma memória de cal e de terra.
poema segundo
na tua ausência, instruo o corpo para a fome e a sede, alimentando-me de poemas e outros frutos silvestres, os silêncio vegetal que emana das partes secretas do corpo, o desejo desalinhado os meus gestos breve e definitivos.
poema terceiro
na tua ausência, desperto no culminar das noites e espero o milagre da poesia, no exacto momento da eclosão das rosas e de outros animais carnívoros. Percorro os dias colhendo a luz nos lugares possíveis, trespassando-os horizontalmente
poema quarto
na tua ausência, vivo entre a terra e o céu circunscrevendo a minha respiração
a um rumor vegetal, busco santuário na tua memória e na consumação da palavra
fecunda colho os últimos frutos do corpo, antes de o abandonar aos pássaros.
poema quinto
na tua ausência, renuncio à pureza da alma e submeto o corpo
à ordem natural do mundo. coloco a máscara de um rosto perfeito com que me dou
a conhecer às mulheres e às crianças. por vezes sorriu subtilmente.
poema sexto
na tua ausência, expando o olhar para além da pele visível das pedras
perenes. cartografo os lugares da memória e todas as insinuações etéreas
da tua passagem. disponho biograficamente os fragmentos do teu nome indelével.
poema sétimo
na tua ausência, sossego o meu breve coração secreto e circunscrevo a alma aos limites do corpo, guardo a música que me restou do verão. procuro abrigo no ventre da terra e adormeço. uma memória de terra e cal. impronunciada.
Filipe Leal
quarta-feira, maio 31, 2006
na tua ausência
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31.5.06
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segunda-feira, maio 29, 2006
tenho saudades
tenho saudades
tenho saudades tuas
tenho saudades de ti
tenho saudades da tua boca
tenho saudades (dos beijos que a tua boca me dava)
tenho saudades (indizíveis do que a tua boca me fazia)
tenho saudades tuas
tenho saudades
(saudades)
Alexandre Monteiro
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29.5.06
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sexta-feira, maio 26, 2006
quinta-feira, maio 25, 2006
Houve um dia em que as estrelas cintilaram, em que o sol sorriu e a chuva simplesmente não se mostrou.
Houve um dia, guardado na minha condição de ser apenas humana, em que sonhei mais e quis tudo. Tudo aquilo que nós sabemos não ser possível existir.
Mas quis e fui contra o tempo, contra o fado, contra o meu pai.
Cronos revoltou-se.
Meu amor, eu pequei contra Cronos só para te amar.
E eís-me agora sem tempo, filha única orfã do tempo que gastei e não perdoei.
Quanto te sei perdido numa metragem qualquer, imagino a imensidão de todas as imagens que te devoram a alma.
Quanto te sei perdido por aí em busca de sol, imagino os fantasmas que te povoam a alma.
Quanto te sei perdido entre folhas de Outono, imagino verde que te habita o olhar.
Quanto te sei perdido por aí num labirinto qualquer, imagino Teseu sem qualquer esperança.
Renuncio então a Cronos, para desmistificar a tua dor - . E com essa glória imortalizar o labirinto que em mim vive com diversas tonalidades.
Mas tu, Teseu sem qualquer esperança, continuas a perder-te sem infinitamente encontrares a cor do meu olhar.
foi então que renunciei a cronos para penetrar o teu olhar,
foi então que quis ser mulher apenas pra te dar a minha cidade - Teseu sem qualquer esperança.
Kraiene
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25.5.06
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quarta-feira, maio 24, 2006
Queria poder dizer-te
Queria poder dizer-te quem sou e o que realmente sou, mas não posso,
na verdade também eu não o sei.
Queria poder devolver-te o sonho que me roubaste, mas tu não podes entender essas coisas, tu pertences a outro mundo que não o meu, somos muito diferentes, tu foste educado para isso e eu nem sei para que fui educada.
Por vezes perco-me em busca de ilusões e o teu olhar já não está lá, contudo permanecemos frente a frente imóveis em busca de palavras e mais palavras sem sentido ( talvez), apenas porque ambos temos medos do espaço que fica entre o silêncio.
quando nos voltarmos a encontrar não digas que temo o silêncio só porque falo demais ou que não sei amar por te ter amado demais.
Talvez um dia o telefone não toque mais.
Talvez o espaço que fica entre a tua voz e o teu silêncio seja demasiado.
A dor da nossa perda não é mais que um sinal do nosso egoísmo, porque na realidade a perda não existe. E o medo que ainda nos resta fica submerso na dor inexistente.
Houve um dia em que pensei ser alguém, apenas par te poder dizer que também eu amo a madrugada.
Kraiene
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24.5.06
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