domingo, outubro 23, 2005

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quinta-feira, outubro 20, 2005

Outono

Por causa de um pacto ancestral com a curvatura da terra, o sol entrega-se mais cedo ao horizonte e nele repousa, deita-se atrás da noite, para que a lua possa viver mais um pouco.
É este o acordo selado ao crepúsculo. É esta a semente do Outono.


E as noites fazem-se gordas, mais fundas.prenhes de escuridão, deitam do ventre manhãs de geadas que depositam à nossa porta.
O vento que vem agarrado ao ar traz um cheiro a frio e sabe-se lá se o sopro que se ouve na rua e nas gretas das janelas não será o lamento do verão que fechamos nas gavetas camisolas de manga curta.

E as formigas são carteiros alados pousando no chão do Outono , trazendo a certeza de chuva.
De onde vêm formigas, estas formigas etéreas? Quem foi que pôs no céu estes bichos de terra e carreiros? Lá fora, por cima das terras lavradas, o firmamento forra-se de cinzento graúdo?
Quem foi foi que pôs no céu estes bichos de terra e carreiros? Lá fora, por cima das terras lavradas, o firmamento forra-se de cinzento graúdo. Chama a si as nuvens e junta-as num tecto de bronze e algodão que rouba a sombra às pessoas e às coisas todas. E quando as nuvens se tocam muito ou tudo, quando se excitam de céu e altura, abrem-se em água, às vezes pouca, às vezes toda. E cá em baixo, a terra que é homem e mulher ao mesmo tempo, de tão contente que está recebe a água nova e leva-a para o seu leito, por cada poro, por cada rego, inundando-se.

E a chuva como que bebe o pó? Torna-o líquido, incapaz de voar. Prende-o à terra se a chuva for pouca, solta-o na corrente de uma ribeira que finalmente se veste de àgua.
As folhas caídas são um vestido amarrotado que o vento, com as suas mãos inquietas e descobridoras, tira do corpo rijo das àrvores em dias e noites de perdição. E nesse manto de folhas secas, debaixo dos meus pés, crepita e estala a minha infância toda. Como se um vento ao contrário me aquecesse a vida. E assim eu tivesse de novo na boca, nos olhos e nas mãos, os primeiros sabores de tudo: das castanhas assadas no cansaço do fogo - a cinza é o cansaço do fogo -, da planície que arrefece, da samarra que me envolve com uma ternura.

E cada folha é também um bocado de tempo que se despegou para sempre.Até ser pó como serei quando todos os Outonos acabarem.
Há um castanho imenso entornado sobre o mundo.
É a cor do silêncio, acho eu.
E as formigas, as normais, aquelas que nunca provaram o céu, cumprem a sua fatalidade. De pés bem assentes na terra. Algumas delas quem lhes dera ter asas!
E há uma noite em que o tempo entontece porque lhe repetem uma hora. Mas os ponteiros do relógio não são os braços nem o coração do destino. O tempo sabe que não pode ser o que já foi. O que os olhos disseram está dito. Pronto acabou-se.

O Outono faz-me cair para dentro. Empurra-me para mim.
Talvez me leve para o lado da suave mágoa. Da névoa.
Dos maiores ventos.
O outono despe-me mais todas as palavras que digo.
Nada faço para me opor. Como uma árvore.

Vitor Encarnação in à espera das andorinhas


segunda-feira, outubro 03, 2005

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Foto: Luís Garção Nunes

Espelho

Sou prata e exacto. eu não prejulgo.



o que vejo engulo de imediato


Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto


Não sou cruel, tão somente voraz-


O olho de um deusinho, de quatro cantos.


O tempo todo reflito sobre a parede em frente.


É rosa, com manchas. Fitei-a tanto


Que a sinto parte do meu coração. Mas vacila


Faces e escuridão insistem em nos separar.



Agora sou lago. Uma mulher se inclina para mim,


Buscando em domínios meus o que realmente é.


Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustro e a lua.


Vejo as suas costas e as reflito fielmente.


Ela me paga em choro, e agitação de mãos.


Sou importante para ela . Ela vai e vem.


A cada manhã sua face reveza com a escuridão.


Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha


salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.



Silvia Plath

domingo, outubro 02, 2005

....soul

nocturno


conhecer amar os outros



reconciliou-me comigo mesmo




estou fascinado pela beleza do mundo



que cor dou ao ar



que sabor tem a àgua



as pequenas coisas



todas as pessoas



o teu nome sobre mim inscrito



o encantamento mais profundo



vive longe no canto secreto da vida



é preciso descobri-lo lentamente



deixá-lo sair transportá-lo ao colo



como o que é frágil



um tesouro



todos os momentos quando bem vistos



têm tudo ou quase tudo



até mistério




o que podemos sentir para se ser feliz






deixa-me sentar ao teu lado



mesmo que não aconteça nada



isso é já um começo



o gosto de acreditar no outro



há pedaços que só se colam assim



memórias que crescem então




como ramos de árvores talvez



sabes, as noites que passamos em claro



depois de não saber que fazer aos dias



têm iluminadas as estrelas.... constelações...



(autor desconhecido)

Silêncio...



No Silencio das palavras


É no silencio das palavras

Que procuro encontrar respostas

Sentidos das coisas que não entendo...


É no silencio das palavras

Que descanso da tormenta

Que é viver em constante procura


É no silencio das palavras

Que te amo na ânsia de ser amada

Que te quero na esperança de ser querida...


É no silencio das palavras

Talvez daquelas que nunca direi

Que fica a mulher que se esconde...


É no silencio das palavras que habita

A vontade de ser, de viver, de sentir

Que tudo vale a pena...


É no silencio das palavras

Que me entrego com ternura

Que me dou por inteiro...


É por fim no silencio das palavras

No murmúrio do mar, som de um suspiro

Que te quererei para sempre!

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(Cristina Bernardo)
Fotografia Sofia Miranda